terça-feira, agosto 29, 2006

cortinas

Me espanta a clareza do dia, como é brusco o romper da manhã pálida que escapa pelas frestas das janelas e ilumina o despojo das festas. Desperta a ressaca, a semana e a agonia da rotina. Eu preciso de cortinas para conservar as sombras da vida e afastar a luz da retina. Manter os meus sonhos no escuro, ainda que seja meio-dia. Eu preciso de cortinas, e esconder atrás delas o meu segredo, pra que as janelas possam ficar abertas e o vento sopre sem que eu tenha medo de ser descoberto. O raiar do dia está perto e a claridade dá forma aos objetos, separa o errado e o certo, o limpo e o sujo, o feio e o belo, o tolo e o sábio. Eu preciso de cortinas pra que a inspiração noturna invada o dia, no engano da mente nasçam maravilhas que nos lábios ganham vida e resistem ao tempo. Eu preciso de cortinas pra entorpecer o pensamento, absorver os efeitos enquanto todos estão dormindo, num ritmo frenético e contínuo, meu coração acelera e me separa ainda mais do ninho. Enquanto todos procuram abrigo, eu aprendo a voar sozinho, entre dissabores e descompassos eu vomito as palavras e dito o meu próprio ritmo. Eu preciso de cortinas pelo direito de escolher ficar no escuro e manter obscuro o que eu não quero trazer à luz e à lucidez que me induz a permanecer alerta. Mas eu não tenho o perfil do bom soldado, sou por natureza desordenado e desorientado dos meus objetivos. Estou preparado para a qualquer momento me deitar num cochilo quase sagrado, e eterno. Eu preciso de cortinas pra não escandalizar os vizinhos com meus hábitos noturnos e sombrios. Odeio olhares maliciosos e mesquinhos, prefiro ser ouvido do que visto, eu não minto. Não gosto de entregar um sorriso compulsório, prefiro ser rude, mas espontâneo, sem amarras e sem enganos. Aceito a euforia e os danos, ainda que essa alegria produzida em laboratório me roube alguns anos, por detrás das cortinas eu me garanto, no escuro não há espanto, e quando conseguir impedir a luz de entrar, aí enfim poderei descansar.

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