ensaio
os lábios estão selados e rachados pelo tempo, as mãos parecem recequidas por causa dos dedos retorcidos, os olhos fogem de qualquer rosto conhecido e pés correm em busca de um lugar esquecido. mais um espectador do próprio destino que esconde as lágrimas nas mangas do casaco e golpeia as lembranças com generosos tragos num cigarro apagado. "o que há de errado comigo?" se pergunta o estranho andarilho que veste sapatos caros e terno de linho, "porque meus pensamentos me deixaram sozinho? todo poeta tem seus desvios, porque as idéias não seguem códigos estabelecidos", repetia ele como uma prece sem sentido. as entradas profundas, o aspecto prateado de seus cabelos e os olhos enterrados no rosto escovado, revelavam o cansaço pela longa vigilia. muitas pessoas pessoas passavam por esse estranho conhecido, alguns diziam que ele parecia um viajante dos tempos em que que velho Cine D'Italia era o orgulho do município, com suas carruagens talhadas nas paredes e sua entrada em mármore branco que se alongava por duas escadarias que levavam até o luxuoso mezzanino. mas assim como velho, o mais belo cinema que Santana das Colinas tivera estava esquecido, sem identidade e sem juízo. apenas algumas partes do antigo piso havia resistido, mas não havia brilho algum, assim como seu terno de linho já marcado de poeira, suor e mijo. quando os Shoppings começaram a ser contruídos os grandes cinemas foram esquecidos. a indústria da pornografia o perverteu e anos depois a igreja o converteu, até finalmente o prédio ser completamente destruído e transformado em estacionamento. Desde então aquele velho mendigo que os comerciantes do centro apelidaram de Oscarito era supostamente o único elo entre a moderna cidade que crescia encravada no grande Vale dos Pardais e os anos de ouro das artes na região. todos os dias Oscarito estava lá com olhar perdido andandando de um lado pro outro recitando seus versos na altura de um sussurro. as prostitutas que fazem ponto nas decadentes ruas do centro as vezes lhe davam algo pra comer e uma manta nas madrugadas mais frias. porém ninguém o conhecia além das palavras que ele balbuciava, nem sequer olhava nos olhos das pessoas que o abordavam ou agradecia o cuidado das garotas. Sua falta de sociabilidade e seu insistente anonimato atiçou a mente das pessoas que se divertiam ao contar um punhado de histórias sobre seu passado. A mais curiosa é de que ele teria marcado um encontro com a mulher que amava a muitos anos e ela jamais apareceu, tamanha rejeição teria afetado seu senso de realidade e desde então ele se tornara prisioneiro da melancolia daquele momento criado para ser a sublime consagração de seu amor. (continua)

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