quinta-feira, abril 30, 2009

Dálmatas


23:21 15\03\09

Dálmatas

Eu não devia tentar escrever sobre meu dia. Não agora. Minha cabeça é como uma máquina fotográfica cheia de imagens gravadas. Lembranças de um universo paralelo. Às vezes parece que não estou vivendo no lugar onde moro. De repente São José dos Campos não é aquela cidade industrial, fria de espírito, mecânica como as engrenagens das indústrias que trouxeram o progresso pra cá.

Em dias como hoje, eu olho no final de uma rua, com vista direto para o horizonte. Sinto o clima úmido e quente anunciando a chuva, enquanto os céus se fecham num cinza, como se estivesse farto da passividade que nos cerca e de repente, do final da rua, de onde enxergo o horizonte, vejo a chuva caminhando, primeiro a passos lentos, aumentando a velocidade gradativamente até envolver o carro e chorar sobre a terra e as copas das árvores paradas como se estivessem simplesmente tomando um banho.

Desejo amar mais do que partir¿ ou a questão não é amar, mas se deixar ser amado¿ Ultimamente dias como esse, cercado de carinho, fantasia e finais de tarde dourados apurariam o senso de vida, mas eles só me despertam mais interesse pelo outro lado

A vida é bem mais interessante quando fujo da matéria, excluo o que é palpável e tento descobrir espírito das coisas.

Hoje eu vi um dálmata marrom correndo perdido, levemente manco, sujo e assustado pela praça. A princípio parecia apenas à frente de seu dono, explorando os arbustos. Mas não havia dono e logo percebi seu olhar desorientado. Todos os sons chamavam sua atenção e ele andava de um lado pro outro como de procurasse uma pista. Quem quer que ele procurava. não estava lá.

Percebi que ele estava perdido, depois me ocorreu que estava abandonado. Apesar de mancando ele tinha o porte atlético. Sujo, porém bem alimentado. Chamei sua atenção várias vezes, mas ele me evitava. Comecei a persegui-lo mas ele fugia. Quando se afastava o suficiente de mim voltava à sua busca desesperada.

Comovido passei a persegui-lo com mais vontade. Parei o carro e comecei a correr atrás dele. Não tenho a menor idéia do que faria se o alcançasse. Não era de um simples cachorro perdido que eu corria atrás. Havia algo mais

Dei um pique por toda a praça, cruzei o grande corredor de pinheiros controlando o fôlego pra não me perder na marcha. Avancei mas ele não dava chance. Estava perdido demais pra confiar em mim. Impressionante que quanto mais perdido estamos, menos confiamos e com mais intensidade fugimos.

Foi o que ele fez. Não podia saber que eu queria salvá-lo. Odiei com ódio mortal o ser humano que o abandonou, se é que isso realmente aconteceu. O cão desceu para as ruas de baixo e eu voltei andando em direção ao carro, derrotado e com a sensação de que minha tentativa de resgate o havia deixado ainda mais perdido. Na praça, ao menos ele estaria mais seguro.

Nos duzentos metros que me separavam do meu domingo dourado, pensei em muita coisa. Até mesmo se aquilo tinha sido real. De quem eu realmente estava correndo atrás¿ Quem eu queria salvar¿ Não é a primeira vez que me empenho em salvar alguém e no final das contas fico com a culpa de ter atirado vinagre na ferida.

Talvez era atrás de mim que eu corria e de algo que jamais terei de volta.

De noite voltando pra casa dei voltas pela praça e ruas ao redor, na esperança de vê-lo cansado, deitado e exausto demais para rejeitar minha ajuda. Tudo que vi foram ruas vazias e escuridão.

É mais difícil encontrar na noite o que se perdeu durante o dia

Agora estou em casa na minha cama desarrumada há uma semana. Penso em ficar assim pra sempre, ou dormir pra sempre. Melhor ainda, seria simplesmente partir.

Pensei no mar e que da próxima vez não terei medo das ondas. Não mais me renderei ao meu instinto de sobrevivência. O que mais pode acontecer¿

Eu estava perdido, sujo e machucado, tentando encontrar alguém que já não estava mais por perto. Perseguindo cheiros e lembranças e fugindo para lugares mais desertos quando ouvia outra voz, senão aquela me chamar. Mas em um dia desses de noite, na escuridão eu estava exausto demais para fugir e decidi entrar pela porta que me foi aberta.

Onde estou há carinho, atenção, amor e pureza. Estou limpo e bem alimentado. Ainda manco, mas consigo andar e consigo correr quando preciso.

Todos os dias penso em sair e procurar por rastros deixados no caminho, mas decido ficar e aos poucos aprendo a confiar na voz que me chama. Nisto eu posso me orgulhar.

Agora posso dizer; Só quem já correu atrás de um animal perdido sabe como é difícil alcançá-lo.

sexta-feira, abril 17, 2009

Sobriedade



















Te contei? Sabe por onde andei?
Agora ando por um caminho novo
O vazio limpo, mas não prostituído

Preciso me lembrar o tempo todo em todo lugar
Que eu prefiro ser o vegetal do que o verme que dele se alimenta
Eu tenho a noite na minha mente e morte nos meus olhos
A vida no meu ventre e sangue no meu copo

Quanto tempo vai durar?Evite perguntar
Deixa rolar como água de desperdício
Em bicas ou em pingos. Nas goteiras eu me limpo

Desligo a TV pra não ver meu programa favorito
Vou pra cama só, como se estivesse sozinho
Antes que a vida tenha gosto, quanto sal terei engolido?

Te contei por onde andei?Não me esqueço do caminho
Só posso dizer que hoje não estarei lá
A não ser que vá dormindo
Por hora ando por um novo caminho

00:13 16\04\09

segunda-feira, abril 13, 2009

Desarranjo





Há um ponto escuro no sol

um pequeno ponto escuro

ele não pode cobrir luz

não impede o dia de ser dia


mas ele sempre está lá

como uma cabana no alto de uma montanha

ninguém sabe quem a contruiu

ninguém sabe como se chega até ela

só se sabe que ela está lá


há um ponto escuro no sol

não sei de onde veio

há um pingo de tinta preta no dourado crepúsculo

não sei quem pintou


só que sei que ela está lá

e a vejo todos os dias

antes de anoitecer

antes de morrer por um tempo

até encontrá-la de novo


cheguei a pensar que foi a tristeza

mas será? ela não poria a mão no fogo por mim

só pra pintar de preto o meu sol

se foi, de tão quente ela não aguentou tirou a mão

mas a mancha ficou