terça-feira, setembro 12, 2006

ainda é noite

deus obrigado porque ainda é noite, as luzes ainda piscam no alto das torres e o orvalho e a neblina ainda dormem. deus por favor poupe-me da luz dia, livra-me da ira e da solidão , faça-me adormecer antes que o sol lance seu clarão e apazigua meu coração. porque eu escolhi o lado mais escuro da estrada, meus ossos tremem e minha vista está embassada, de tanto andar a procura de um refúgio onde a brisa é fresca e o ar é puro, onde meus sonhos possam crescer e dar frutos e o amor é fruta madura no pé, e nunca apodrece. onde a amizade é sombra frondosa que nunca seca. faz sobre meus pés um tapete com todos os tipos de flores e que o aroma seja doce. porque eu preciso de uma paz que não se encontra em prateleiras, ou escondida em becos e beiras. permita-me simplesmente fechar os olhos e cair em um sono profundo, conhecer o descanso dos justos, ainda que eu seja impuro, indigno e intruso. não há outro alguém que possa me fazer limpo, sereno e tranquilo. não vejo ninguém a quem possa chamar de amigo, que possa me oferecer abrigo e cuidar das feridas dessa caminhada. tudo que eu vejo é a estrada, sem direção e sem mapa eu avanço diante do nada enquanto minhas forças escorrem como sangue de um ferimento aberto, preciso desesperadamente de um remédio que cure a febre da minha alma. não permita que o deserto seja minha casa e que as carniças sejam meu alimento, me ajude a atravessar enquanto ainda há tempo, antes que eu seja tragado pelo vento que corre na direção contrária dos seu braços, que a lua ilumine o caminho pra que eu possa encontrar os seus passos marcados na areia. alivia o peso do meu peito e coloca em meus lábios um sorriso perfeito, pois minha ambição foi maior que meu talento e hoje eu sou escravo dos meus desejos e já não domino meus pensamentos, sou folha seca ao sabor do vento, um cão vira-lata que dorme ao relento, revirando lixo em busca de alimento, prisioneiro em um pesadelo que me mantém sonhando acordado, entre ferpas e cacos de meu coração despedaçado. não há outro que possa aliviar o meu fardo. tu és o maestro da vida, por isso faça de mim uma sinfonia em tributo à sabedoria, um sopro de alegria que invade o dia e flui como brisa da manhã. deus obrigado porque ainda é noite e te encontrar é minha sina e minha sorte.

terça-feira, setembro 05, 2006

05:59 am

ela segura minha mão enquanto olho pro vazio, sinto a dança suave dos dedos sobre a pele, como a muito já havia esquecido, desisto de tentar conter as lágrimas que marcam o meu rosto, como um pecador arrependido. pelos cantos da janela o vento escapa e corta frio, congela um momento que eu jamais queria ter vivido, como uma fotografia esquecida em uma gaveta, a vida perde seu sentido. cometi o crime que tanto condeno, sou juiz e réu em um mesmo julgamento, presa minha alma sucumbe ao tormento. sou náufrago que se afoga diante da luz do farol, acreditei no milagre até o céu se fechar em temporal. felizes são os cínicos, que sorriem sem gostar e choram sem querer, que cobrem as cicatrizes com tatuagens de renna. eu podia tentar não desabar, eu podia tentar me esconder, mas prefiro a humilhação verdadeira do que a ilusão demente. se pudesse cravaria um punhal em meu peito, encerraria o poema do meu jeito, mas somente deus tem esse direito. avise o dono da felicidade que eu troco tudo o que tenho, por apenas um dia em que morte não ronde meu pensamento. felizes são os cínicos dizem pro espelho, como é linda a imagem que eles estão vendo, que guardam o nó na garganta e desatam apenas pro travesseiro. em quantas palavras eu posso dizer, que perdi a vontade de viver? o que eu preciso fazer pra me fazer entender? quantas mentiras eu preciso contar até que comecem a acreditar? felizes são cínicos que escrevem poemas suicídas e colocam o relógio pra despertar bem cedo, pra que eles possam fumar o primeiro cigarro do dia enquato vêem o sol nascendo. mas eu não tenho esse talento, tudo que sei é usar algumas palavras pra expressar meus sentimentos, as vezes perco a trilha dos meus próprios pensamentos e misturo no mesmo poema uma porção de argumentos. talvez eu não seja poeta, talvez eu não seja ninguém, talvez eu seja apenas um personagem que vive na cabeça de alguém.