quarta-feira, outubro 25, 2006

integral ou desnatado

você muda seu leite de integral pra desnatado, mas no final descobre que é o gosto que te deixa enjoado. leva um tempo até descobrir o que está errado e quando isso acontece você está muito cansado pra escolher qualquer um dos lados. tem dias que acordo e vejo o mundo em preto e branco, não há cor nos olhos, apenas marcas no rosto, como se estivesse vestido a caráter pro funeral dos meus sonhos. você sabe leva um tempo pra acostumar com o clima, mas no final eu vou levar tudo e manter alta a endorfina. você pode esquecer um amor com uma balada auto-destrutiva ou usar caco de vidro para coçar uma ferida. ninguém consegue ser sincero o tempo todo, se verdade é como o sol qual é a cara da mentira? você pode mudar seu leite de integral pra desnatado, mas no final descobre que é o gosto que te deixa enjoado. uns pecam por falar demais e outros por não falar nada, eu só quero ser o tipo de homem que escolhe bem suas palavras. talvez quando eu ganhar o mundo ou quando não me sobrar mais nada eu aprenda realmente a controlar a minha língua. você pode me odiar todas as vezes que eu mentir, mas amor talvez eu só esteja dizendo aquilo que você deseja ouvir. acredite não dá pra fazer o tempo passar mais rápido vivendo a mil por hora, encurtar o dia e esticar a noite, acelerar até distorcer a paisagem, você pode gastar todo o seu combustível, mas ainda vai estar na mesma estrada. você muda seu leite de integral pra desnatado, mas no final é o gosto que te deixa enjoado. eu nunca durmo bem quando estou muito cansado, parece que até pra sonhar é preciso estar acordado. abro a geladeira, acendo um cigarro e acabo adormecendo antes que o dia dê seu espetáculo. talvez deus esteja apenas pintando um quadro em sua varanda que dá vista pra todo o universo enquanto você se concentra pra escrever um último verso. você muda seu leite de integral pra desnatado, mas no fim descobre que é o gosto que te deixa enjoado.

quinta-feira, outubro 12, 2006

entre versos e vícios

amanhã é sua chance de fazer a vida diferente. buscar o seu próprio sentido em escolher permanecer perdido. eu prefiro não saber e manter o benefício de surpreender e ser surpreendido, entre versos e vícios. se a vida é um livro meus últimos versos já estão escritos, por isso vamos evitar tanto disperdício. me deixe apenas fechar os olhos e descansar porque eu prometo que amanhã eu estarei tão vivo quanto vocês, entre versos e vícios. eu tive um sonho que carrego que comigo, ele não teve desfecho e não me lembro do início. centenas de pregadores sem língua falavam comigo, tentando ensinar como viver a vida. como ser um bom pai, sem ter sido um bom filho? como demostrar amor nos pequenos detalhes? e uma voz me disse meu filho, isso você vai aprender sozinho, entre versos e vícios. hoje eu ouvi meu nome, mas não era comigo, era um homem que dormia em frente a um cinema antigo. ele não tinha família, ele não tinha amigos, ele não respondeu ao chamado do amigo. alguém disse "meu deus, esse homem não está dormindo", ninguém percebeu seu último suspiro. foi então que eu entendi o que é estar sozinho, entre versos e vícios.

Vira-Lata

Música e letra:. Thiago Milani

domingo, outubro 01, 2006

ensaio

os lábios estão selados e rachados pelo tempo, as mãos parecem recequidas por causa dos dedos retorcidos, os olhos fogem de qualquer rosto conhecido e pés correm em busca de um lugar esquecido. mais um espectador do próprio destino que esconde as lágrimas nas mangas do casaco e golpeia as lembranças com generosos tragos num cigarro apagado. "o que há de errado comigo?" se pergunta o estranho andarilho que veste sapatos caros e terno de linho, "porque meus pensamentos me deixaram sozinho? todo poeta tem seus desvios, porque as idéias não seguem códigos estabelecidos", repetia ele como uma prece sem sentido. as entradas profundas, o aspecto prateado de seus cabelos e os olhos enterrados no rosto escovado, revelavam o cansaço pela longa vigilia. muitas pessoas pessoas passavam por esse estranho conhecido, alguns diziam que ele parecia um viajante dos tempos em que que velho Cine D'Italia era o orgulho do município, com suas carruagens talhadas nas paredes e sua entrada em mármore branco que se alongava por duas escadarias que levavam até o luxuoso mezzanino. mas assim como velho, o mais belo cinema que Santana das Colinas tivera estava esquecido, sem identidade e sem juízo. apenas algumas partes do antigo piso havia resistido, mas não havia brilho algum, assim como seu terno de linho já marcado de poeira, suor e mijo. quando os Shoppings começaram a ser contruídos os grandes cinemas foram esquecidos. a indústria da pornografia o perverteu e anos depois a igreja o converteu, até finalmente o prédio ser completamente destruído e transformado em estacionamento. Desde então aquele velho mendigo que os comerciantes do centro apelidaram de Oscarito era supostamente o único elo entre a moderna cidade que crescia encravada no grande Vale dos Pardais e os anos de ouro das artes na região. todos os dias Oscarito estava lá com olhar perdido andandando de um lado pro outro recitando seus versos na altura de um sussurro. as prostitutas que fazem ponto nas decadentes ruas do centro as vezes lhe davam algo pra comer e uma manta nas madrugadas mais frias. porém ninguém o conhecia além das palavras que ele balbuciava, nem sequer olhava nos olhos das pessoas que o abordavam ou agradecia o cuidado das garotas. Sua falta de sociabilidade e seu insistente anonimato atiçou a mente das pessoas que se divertiam ao contar um punhado de histórias sobre seu passado. A mais curiosa é de que ele teria marcado um encontro com a mulher que amava a muitos anos e ela jamais apareceu, tamanha rejeição teria afetado seu senso de realidade e desde então ele se tornara prisioneiro da melancolia daquele momento criado para ser a sublime consagração de seu amor. (continua)